quinta-feira, 29 de junho de 2017

Ferretes do Medo

O que é o mal? Qual é a origem mal?

Essa é uma questão pesada, densa, é uma pergunta bem complexa e em alguma medida esbarra em várias disciplinas, ela é filosófica, teológica, antropológica, sociológica, psíquica e por aí vai.

Dentre milhares de explicações, vou me debruçar sobre a ideia de que há uma conexão intrínseca entre mal e medo. Parafraseando o mestre Humberto (Engenheiros do Hawaii) acredito que “o mal nasce do medo, do medo que as pessoas têm”.

Zygmunt Bauman, filosofo contemporâneo, faz uma conexão do mal com o medo. Ele chega a dizer que medo e mal são irmãos siameses, estão tão entrelaçados que mal conseguimos identificar quem é quem. “O que tememos é o mal; o que é o mal, nós tememos”.

Partindo daí compreendemos alguns movimentos reativos/vingativos de nossa sociedade, como linchamentos, execrações públicas, marcações na testa, e a lista cresce na tragédia de horrores.

Sei que nosso sistema judiciário é falho, e que essa sensação de que nada é feito é dura, nos traz um medo de que tudo se desregule e, que o mundo vire um caos. Afinal de contas, temos medo de sermos abordados com um 38 no rosto por causa de um celular. Temos medo de nos sentirmos impotente ante a um garoto armado que está levando embora aquilo que é fruto do nosso esforço. Temos medo de ficarmos à mercê do gatilho, medo de vermos o pânico estampado no rosto de quem mais amamos.

Concordo! É um absurdo ter medo de viver, mas luto diariamente para que esse medo não me torne medonho.

O mal nasce do medo, do medo que nos domina, que nos torna medonhos, que torna nossas ações medonhas, que torna o mundo medonho. Como colher um mundo de paz, onde só se planta o medo?

Marcar o outro não é coragem, nem justiça. Marcar o outro é fazer do medo ferramenta que nos gera mais medo. Linchar o próximo é tocar o terror em quem nos aterroriza. Tais atitudes são medonhas, só revelam o quanto somo igualmente medonhos.

Coragem é o ato de não deixar que o medo domine nosso agir. 


Pensemos uma justiça que não tortura, mas que antes de tudo ensina, que coloca o errante nos trilhos do que é direito, que o reintegra ao convívio social, que o traz de volta à vida.

Se não mudarmos a chave e entendermos que justiça é correção e não condenação, estaremos assinando um atestado de que a vida não pode se reinventar. Criaremos uma régua que talvez algum dia nos mesmos possamos cair nela, e decretaremos que AMOR perdeu a batalha contra o medo.

Não torço para que o outro seja encarcerado para que apenas sofra as consequências de seu mal, torço para que ele compreenda o seu mal e assim se torne bom. Torço para que compreenda o medo que ele tem, na esperança de que ele deixe de ser medonho.

Que o martelo não seja batido por uma pena castigo, mas por uma pena compaixão, não tenho a ilusão que o fogo se apaga com álcool, nem a inocência que atitudes medonhas possam combater o medo. Por isso peço, se for fazer justiça, faça aquela que rompe com o medo e a maldade.

A chama medo que nos incita ao ódio, cria em nosso coração os mesmos pavores.


A vida é bela e a ideia é nobre

Silas Lima

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